Educação Jurídica

O que a IA muda na formação dos novos advogados

Mal usada, a IA corta as etapas que formam o raciocínio jurídico. Bem usada, qualifica a supervisão e a aprendizagem. Sobre o impacto da IA na formação inicial.

As tarefas que a IA encurta podem ser exatamente as que formam o jurista.

A entrada da inteligência artificial nos escritórios tem um efeito sobre os profissionais em início de carreira que merece ser examinado com cuidado, porque ele é ambíguo. De um lado, a ferramenta libera o estagiário e o recém-formado de tarefas repetitivas que consumiam horas sem ensinar muito. De outro, algumas dessas tarefas aparentemente mecânicas eram justamente as que formavam o raciocínio jurídico, e encurtá-las pode significar cortar a etapa que construía a competência. Minha tese é que o efeito da IA sobre a formação não é bom nem ruim por natureza. Depende inteiramente de como o uso é desenhado, e o desenho equivocado pode produzir uma geração que sabe obter respostas e não sabe construí-las.

Algumas tarefas tediosas eram formativas

Existe uma categoria de trabalho que o profissional experiente considera tedioso e que, para o iniciante, é formativo. Ler um conjunto extenso de documentos para extrair o que importa ensina a distinguir o relevante do acessório. Pesquisar jurisprudência sobre um tema, comparar decisões e organizar entendimentos ensina a navegar o Direito e a perceber como os argumentos se constroem. Sintetizar um caso complexo em um resumo ensina a separar o essencial do ruído. Revisar uma peça à procura de erros ensina a reconhecer o que torna um texto jurídico sólido. Essas tarefas são lentas e trabalhosas, e é exatamente na lentidão e no trabalho que a formação acontece.

O problema é que essas são justamente as tarefas que a inteligência artificial faz com facilidade. Ela lê o conjunto de documentos e extrai o resumo. Levanta a jurisprudência e organiza os entendimentos. Sintetiza o caso. Aponta inconsistências no texto. Quando o estagiário delega essas tarefas à ferramenta, ele ganha tempo e perde a formação que elas proporcionavam. Recebe o resultado sem ter feito o percurso, e é o percurso, não o resultado, que constrói o raciocínio. A ferramenta não é maliciosa. Ela apenas faz bem aquilo que, no caso do iniciante, deveria ser feito com esforço próprio, porque o esforço era o ponto.

O risco de formar quem nunca construiu o raciocínio

A consequência mais séria desse uso é a formação de profissionais que sabem obter respostas e não sabem construí-las. Eles aprendem a pedir à ferramenta o resumo, a pesquisa, a síntese, a revisão, e desenvolvem uma competência operacional notável em conseguir resultados. Mas não desenvolvem a competência subjacente, a de produzir esses resultados por conta própria, porque nunca a exercitaram. E essa competência subjacente é o que permite avaliar criticamente os resultados que a ferramenta entrega. Quem nunca pesquisou jurisprudência por conta própria não tem como avaliar se o levantamento da ferramenta está completo. Quem nunca sintetizou um caso não percebe quando a síntese automática omitiu o que importava.

Forma-se, assim, um profissional com uma fragilidade estrutural: ele depende da ferramenta não apenas para executar, mas para suprir uma competência que nunca construiu. É a dependência na sua forma mais grave, porque não atrofiou uma capacidade existente, impediu que ela se formasse. O profissional experiente que delega à IA ao menos tem o julgamento formado pela prática anterior, que lhe permite avaliar o que recebe. O iniciante que delega desde o começo não tem esse julgamento, e pode nunca vir a tê-lo, porque a ferramenta ocupou o espaço em que ele deveria ter se desenvolvido.

O outro lado: a IA pode qualificar a aprendizagem

Seria desonesto, porém, apresentar apenas o risco. Bem desenhado, o uso da IA na formação pode qualificar a aprendizagem em vez de prejudicá-la. A ferramenta pode ser usada como interlocutor: o iniciante faz a sua síntese e a compara com a da máquina, percebendo o que deixou de fora. Pesquisa por conta própria e usa a ferramenta para verificar se não esqueceu algo, exercitando o próprio trabalho antes de conferir. Recebe da ferramenta uma versão que ele precisa criticar, o que treina a revisão. Nesse uso, a IA não substitui o esforço formativo, mas o complementa, oferecendo um contraponto que torna a aprendizagem mais rica.

A supervisão também pode ser qualificada. O tempo que o supervisor gastaria conferindo tarefas mecânicas pode ser reinvestido em orientar o raciocínio, discutir estratégia, ensinar o que só se aprende na conversa entre quem tem experiência e quem está começando. A ferramenta, ao assumir parte do trabalho mecânico, pode liberar o que há de mais significativo na formação, que é o tempo de orientação qualificada. O efeito depende, mais uma vez, do desenho. A mesma ferramenta que pode cortar a formação pode, usada de outro modo, aprofundá-la.

A responsabilidade é de quem forma, não só de quem se forma

É tentador atribuir o problema ao iniciante, como se a solução fosse ele ter disciplina para não usar a ferramenta nas tarefas formativas. Essa leitura é incompleta. O iniciante usa a IA da forma que o ambiente permite e incentiva. Se o escritório ou a faculdade mede o seu trabalho apenas pelo resultado entregue, sem se importar com o percurso, o iniciante racionalmente delega o percurso à ferramenta, porque é o resultado que está sendo cobrado. A responsabilidade pelo uso formativo da IA é, em boa parte, de quem forma: dos escritórios que estruturam o trabalho dos estagiários, dos supervisores que orientam, das instituições que desenham a aprendizagem.

Isso significa repensar como o trabalho dos iniciantes é organizado. Significa preservar deliberadamente as tarefas formativas, mesmo quando a ferramenta poderia executá-las, porque o objetivo, no caso do iniciante, não é apenas o resultado, é a formação que o produzir gera. Significa desenhar o uso da IA de modo que ela complemente o esforço em vez de substituí-lo. Quem forma precisa decidir, conscientemente, o que delegar à ferramenta e o que reservar ao esforço do iniciante, porque essa decisão, tomada bem ou mal, molda a competência da próxima geração de juristas.

Há uma analogia que ajuda a entender o que está em jogo. Ninguém aprenderia a fazer contas se, desde a primeira aula, entregasse todos os cálculos a uma calculadora. A calculadora é útil para quem já compreende a operação e quer apenas agilizá-la, mas é um obstáculo para quem ainda precisa entender o que a operação significa. Com o raciocínio jurídico ocorre o mesmo, em escala mais complexa. A ferramenta que agiliza o trabalho de quem já sabe pode impedir a formação de quem ainda está aprendendo, se for usada para pular justamente as etapas em que a compreensão se constrói. O desafio de quem forma é distinguir esses dois momentos e não tratar o iniciante como se ele já fosse o profissional formado que pode delegar com segurança.

Conclusão

A inteligência artificial muda a formação dos novos advogados ao tornar fáceis justamente as tarefas que, pela dificuldade, formavam o raciocínio jurídico. Mal usada, ela corta o percurso e produz profissionais que obtêm respostas sem saber construí-las nem avaliá-las. Bem usada, com supervisão e desenho cuidadoso, pode qualificar a aprendizagem e liberar o tempo de orientação. A consequência prática, sobretudo para quem forma, é não deixar o uso ao acaso. As tarefas que se delega à ferramenta e as que se reservam ao esforço do iniciante precisam ser escolhidas com consciência de que está em jogo não a eficiência de hoje, mas a competência de amanhã. Uma geração formada para operar a ferramenta sem saber pensar sem ela não é uma geração mais avançada. É uma geração que terceirizou, antes mesmo de construí-lo, o raciocínio que deveria defini-la.

Jamille Porto é advogada, professora e pesquisadora em Inteligência Artificial aplicada ao Direito e fundadora da NeuralLex, empresa que desenvolve soluções de IA, governança, formação, sistemas e fluxos inteligentes para o setor jurídico e educacional.

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Perguntas respondidas neste artigo

A IA ajuda ou prejudica a formação de novos advogados?

Pode ajudar, se usada para ampliar repertório, estimular revisão e discutir limites. Pode prejudicar, se substituir leitura, escrita e elaboração própria. O artigo mostra que o efeito da IA na formação depende do desenho pedagógico e da preservação do raciocínio jurídico.

Que etapas da formação a IA pode encurtar?

A IA pode encurtar etapas de pesquisa inicial, organização de tópicos, revisão de linguagem e comparação de ideias. O risco é encurtar justamente o processo em que o estudante aprende a pensar juridicamente. Por isso, nem toda economia de tempo é ganho formativo.

Como usar IA sem comprometer o raciocínio jurídico?

É preciso exigir explicação, revisão, justificativa de fontes e reconstrução do argumento. O estudante pode usar IA como objeto de crítica ou apoio, mas deve demonstrar compreensão própria. A ferramenta não deve ocupar o lugar da leitura, da escrita e da decisão argumentativa.

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Jamille Porto, advogada, professora e pesquisadora em Inteligência Artificial aplicada ao Direito
Sobre a autora

Jamille Porto

Jamille Porto é advogada, professora e pesquisadora em Inteligência Artificial aplicada ao Direito. É fundadora da NeuralLex, empresa que desenvolve soluções de IA, governança, formação, sistemas e fluxos inteligentes para o setor jurídico e educacional.